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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Para os que virão...

Iniciamos hoje as apresentações de livros.

E foi um privilégio termos o professor de História - Fernando Santos - a partilhar dois dos livros que fazem parte da sua história.
Sentou-se lá à frente e com um ar surpreendentemente envergonhado, quase comprometido, mostrou-nos dois livros:

"Canto de amor armado" de Thiago de Mello
e
"Poemas" de Bertolt Brecht


Começou por nos dizer que seria, provavelmente, estranho que ele - um professor de História - tivesse escolhido dois livros de poesia para apresentar à turma. Mas explicou que aqueles livros e aqueles poemas tinham marcado a sua vida e moldado o seu pensamento ao longo de anos.
Contou-nos um pouquinho das suas vivências (partilhadas só connosco e portanto não plasmadas neste blogue), confidenciou-nos um ou dois segredos e leu-nos dois poemas:


PARA OS QUE VIRÃO

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro:
sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida,
a garra da opressão,
e nem sabem.

Não, não tenho o sol escondido
no meu bolso secreto.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda
pessoa do plural.

Já não caminho sozinho.
E porque sei que sou pouco,
me uno ao pouco
que ainda resta:
de verade a construir.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com aqueles que, irmãos de rumo,
muito longe ainda se encontram
de aprender a conjugar
o verbo amar. Línguas são.

Mas é tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.

Tempo é de seguir juntos.
Se trata de ir ao encontro.
( Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros. )
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Mello, Thiago de, Canto do Amor Armado,
Col. Círculo de Poesia, Moraes Editores, 1974


E ainda:

DIFICULDADE DE GOVERNAR

1.
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2.
E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3.
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4.
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

Brecht, Bertolt, Poemas, col. Forma, Ed. Presença, 1976

E explicou-nos em que medida cada um dos poemas definiu aquilo que ele hoje é.

Quem quiser saber, que venha às nossas aulas... ou às aulas do prof. Fernando Santos!




Foi particularmente "giro" (perdoe-se-me a pobreza do adjetivo) perceber que por trás dos professores, também há pessoas inteiras, com emoções, paixões, utopias e com uma história de vida que vale sempre a pena descobrir.

Ficou-me, a mim, sobretudo o fascínio da primeira estrofe de "Para os que virão".
Paradoxo supremo: quem se reconhece como "pouco" é porque é "muito". E só os que são "pouco" se consideram como "muito"...

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro:
sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Obrigado Fernando, por estes momentos de magia...

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